
As parcerias da despromoção
13.03.2007, Manuel Mendes
Para conseguir a manutenção na Liga, o Beira-Mar conta desde Dezembro com a colaboração da Inverfutbol, uma empresa espanhola que representa jogadores e treinadores. Mas, para já, o único dado visível foi a revolução que atingiu o plantel. Conta com um novo treinador, vários reforços e alguma descompressão em termos económicos. O resultado final, porém, é uma incógnita e a equipa continua na zona de despromoção. Freamunde, Farense e o próprio Beira-Mar foram alguns dos clubes que julgaram encontrar no passado a salvação em grupos estrangeiros. Todos falharam.Talvez por isso os adeptos de Aveiro se mostrem cépticos em relação à bondade desta aliança. Não esqueceram o trabalho idêntico desenvolvido com a Stellar Group em 2004 que culminou com a despromoção do clube à Liga de Honra. O Freamunde também estabeleceu uma parceria com a espanhola Constelation Deportiva, em 2000-01, e desceu da Liga de Honra à II Divisão B. O Farense, embora num acordo completamente diferente, também não tirou grandes dividendos da entrada dos espanhóis da Alcon, em 1999, na recém-constituída SAD do clube. Os algarvios estavam, então, na I Divisão, mas, com a saída dos espanhóis em 2001, o clube entrou em colapso. Hoje disputa os distritais. Os dirigentes, com excepção do responsável do Farense David Santos, que na altura estabeleceram esses contratos garantem que não repetiriam a experiência.
É que, como contrapartida aos reforços a custo zero, da promessa de um salto no panorama futebolístico e da entrada imediata de algum dinheiro, as empresas colocam as suas imposições. Nomeadamente um treinador da sua confiança que, segundo os dirigentes dos clubes, permite a entrada de inúmeros jogadores, o que, em termos desportivos, se tem revelado catastrófico.
"Foi o pior acordo que fiz em dez anos de dirigente. Nunca mais o repetiria", diz Mano Nunes, o ex-presidente aveirense que estabeleceu a parceria com o Stellar. Confessa que se deixou iludir pelas promessas da empresa. "Fiquei convencido que ia levar o clube às competições europeias e coloquei-o na Honra", lamenta.
Jogadores sem categoria
Alberto Graça, líder da Comissão Administrativa do Freamunde em 2000, não esquece o Verão desse ano. Foi por essa altura que a Constelation o convenceu que o seu clube poderia subir de escalão. "Diziam que dominavam o mercado dos Camarões, que era possível chegar à I Liga. Mas, num curto espaço, esgotámos as 30 inscrições na Liga e verificámos que muitos dos jogadores não tinham categoria", conta.
Mano Nunes e Alberto Graça estão de acordo num ponto: este tipo de parcerias nunca pode resultar quando a empresa passa a controlar o departamento de futebol e impõe um treinador. "Bons ou maus, os futebolistas representados pela empresa acabam por ter preferência", explica o antigo responsável pelo Freamunde, que no final da temporada quebrou o acordo com a empresa espanhola, precisamente por causa da escolha do técnico. Este ex-dirigente está, contudo, convencido que o futuro pode passar por este tipo de parcerias. Mas, nota, apenas se forem elaboradas de forma a permitir ao clube a gestão independente do departamento de futebol.
Mano Nunes nem assim se convence. Considera que o único objectivo destas empresas é "colocar carradas de jogadores, porque basta um que dê nas vistas para cobrir o investimento". A título de exemplo, lembra que só a verba que o Beira-Mar recebeu dos 50 por cento do passe de McPhee, a única transferência no reinado Stellar, foi suficiente para o clube pagar os salários de todos os jogadores que o grupo inglês colocou em Aveiro, mas também para a empresa retirar dividendos do acordo.
Os treinadores também consideram que um balneário numa parceria destas é ingovernável. O Beira-Mar teve na temporada de 2004-05 quatro treinadores. Um deles foi Manuel Cajuda que, ao fim de dois meses, resolveu bater com a porta e deixou uma mensagem: "Caso esta gente não tenha juízo, pode ter graves problemas já esta época", afirmou, deixando ainda algumas acusações à Stellar: "Enquanto for treinador, em Portugal mandam os portugueses". Seguiu-se Luís Campos. Este técnico garantiu ao PÚBLICO que não sentiu problemas com a Stellar. Mas reconheceu que o balneário estava desfeito. "Havia demasiados jogadores estrangeiros que não se conseguiram adaptar ao futebol português. Era uma confusão de línguas e é impossível trabalhar nestas condições", conta.
O dinheiro, na verdade, ajuda a convencer os dirigentes. O Farense, por exemplo, só conseguiu a verba para participar na época de 1999-00 devido a um empréstimo concedido pela Alcon e que em Novembro de 1999 adquiriu o controlo da SAD do clube. "Foi com esse dinheiro que fizemos a inscrição, um dia antes de expirar o prazo. A ideia inicial era a existência de intercâmbio com o clube espanhol", conta o presidente da altura, David Santos, que atribui o falhanço da parceria a problemas políticos. O Freamunde também se increveu na época de 2000-01 com os cerca de 100 mil euros que a Constelation lhe ofereceu. McPhee foi o único jogador que o Beira-Mar conseguiu vender durante o período em que teve um acordo com a Stellar.
Beira-Mar
Em Abril de 2004 estabeleceu um acordo com a Stellar. O clube recebia jogadores a custo zero, pagava apenas 50 por cento do salário e tinha direito a metade das receitas resultantes de uma futura transferência. Como contrapartida, a Stellar impôs o técnico Mick Wadsworth (ficou pouco tempo no clube). Surgiram muitos reforços: Paul Murray, McPhee, Pablo Rodriguez, Tanque Silva, Srnicek e Galekovic. O objectivo era lutar pela Europa. O resultado foi a descida à Liga de Honra. Com a Inverfutbol, o Beira-Mar recebe jogadores e treinadores a custo zero, tanto em termos de passe como de salários, e garante ainda dez por cento em futuras transferências. Os actuais dirigentes frisam que o acordo nada tem a ver com a anterior parceria e que o "clube não perde autonomia".
Freamunde
O acordo com os espanhóis da Constelation Deportiva foi estabelecido em 2000 e permitiu ao clube um encaixe financeiro imediato a título de oferta de cerca de 100 mil euros. A parceria permitia receber jogadores a custo zero e pagar salários apenas até um determinado tecto (ficando o restante a cargo dos espanhóis). A empresa impôs o treinador Manoel Miluir e passou a dominar o departamento de futebol. Nas transferências dos jogadores representados pela Constelation, o Freamunde recebia 20 por cento. Se o jogador fosse do clube, os números subiam para 80 por cento. O objectivo: levar o clube para a I Liga. O resultado: descida à II Divisão B.
Farense
No início da época de 1999-00, o Farense estava numa grave crise financeira. A solução para inscrever a equipa passou por um acordo com os espanhóis da Alcon, com interesses no Salamanca. Em Junho, os espanhóis concederam um empréstimo ao clube. Em Novembro adquirem a maioria das acções da SAD por 850 mil euros. O objectivo passava por criar, conta João Alves, uma parceria com o Salamanca. O técnico diz que o acordo só não resultou devido às pessoas que estavam à frente do clube. A Alcon vendeu grande parte das acções em Novembro de 2001 à Ambifaro. O clube entra em colapso e sofre despromoções sucessivas.