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quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

"Histórias de Guarda-Redes"

Na sequência de diversas pequenas intervenções minhas em posts do Bancada Norte, entendeu o Nuno honrar-me com a possibilidade de colaborar aleatoriamente no seu blog. Não sei se terei capacidade para corresponder ao convite, sendo certo que num blog excelente se exige qualitativamente uma fasquia alta. Imploro a vossa tolerância.

Ao longo dos anos, aqueles que acompanham com alguma regularidade a vida de uma colectividade vão coleccionando pequenas "estórias" do seu universo, simplesmente curiosas umas, verdadeiramente caricatas outras, algumas, ainda que autênticas, verdadeiramente dignas de enriquecer o vasto anedotário nacional.

Talvez esta seja uma destas últimas.

Há já uns largos anos passou pelo Beira Mar um então jovem guarda-redes que se fazia notar, não tanto pelo seu talento a defender as bolas, mas principalmente pela sua desmedida e permanentemente auto-propagandeada ambição de vir a ser um colosso das balizas, "um guarda-redes para oBenfica e para a selecção nacional!"

Um caso evidente em que o sonho ultrapassava em muito as capacidades, já que o moço, embora entusiasta e aplicado, não tinha, contudo, condições inatas suficientes para o levar tão longe.

O caso seria banal e ninguém repararia, não fosse dar-se o facto do sonhador espalhar aos quatro ventos insistente e convictamente o seu desiderato, ou seja, o rapaz, além de sonhador era aquilo que se poderia chamar um presunçoso, um basófias... mas, a realidade é que o tempo ia passando, os campeonatos sucediam-se uns atrás dos outros, a defesa das balizas da equipa continuava entregue a outros guardiões e o nosso sonhador limitava-se a ser o terceiro ou quarto guarda-redes da equipa e a jogar esporadicamente no então existente campeonato de reservas da Associação de Futebol de Aveiro... até que um dia, já cansado de tamanha espera pelo despontar do estrelato, terá tido a ideia da sua vida: havia que provar uma vez por todas à cambada de ceguinhos que tinha andado a treinar a equipa a sua categoria, havia que calar definitivamente os nabos, os invejosos e os tapadinhos que achavam que ele não defendia nada!

Se bem o pensou, melhor o fez...

Vai daí, contratou um reputado fotógrafo profissional da cidade, explicou-lhe a importância do trabalho a executar e, em resumo, encomendou-lhe meia dúzia de fotos esclarecedoras, verdadeiras e insofismáveis provas da sua categoria a defender as bolas! Estaria ali, estava convicto, o abrir da porta para uma carreira de verdadeiro craque que sabe-se lá até onde poderia ir!

Combinada a coisa, num belo sábado à tarde, postado o fotógrafo junto àbaliza norte do estádio, o nosso herói, de equipamento lustroso, brilhantina no cabelo, pose altiva e gesto garboso ia transmitindo ao fotógrafo as precisas instruções sobre a tarefa a executar, as aberturas de luz, a definição dos planos, os ângulos mais favoráveis, os lances a previlegiar, etc, etc.

Três ou quatro chapas já batidas, "muito boas, muito boas", jurava o fotógrafo, não pareciam satisfazer o ego enorme do nosso protagonista que continuava, encostado ao poste, a transmitir insistentes ordens e sugestões para tomadas de pose arrebatadoras. Até que... helás! Um livre quase frontal à entrada da área... "É agora, é agora!", gritava o nosso homem quase extático virado para trás enquanto a defesa formava a barreira. "Eu vou-me atirar em voo p'rá direita! Quando eu der um estalo c'os dedos atiro-me e você dispára!", gritava ele. "Tá bem, tá bem!", respondia o fotógrafo...

Assim foi. Barreira formada, o árbitro apita, o nosso guarda-redes olha para trás, faz o tal gesto com os dedos e lança-se num vistoso voo para o ângulo superior direito da baliza enquanto... ó azar dos azares, a bola entra directa e vagarosamente pelo lado esquerdo da baliza...

O caso deu brado. Contou-se por entre gargalhadas durante muitos anos e parece que nunca ninguém chegou a ver as tais fotografias que iriam lançar definitivamente o guarda-redes no estrelato futebolístico...

Narciso Cruz

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