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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2006

"Histórias de lesionados"


"Mataste-me, desgraçado!"

Nos finais dos anos sessenta disputava-se uma interessante competição chamada Campeonato de Reservas da Associação de Futebol de Aveiro.

Patamar na ascensão de jogadores saídos das camadas jovens, hipótese competitiva de atletas pouco utilizados nas primeiras categorias ou fim de festa para futebolistas na curva descendente, era uma prova com interesse, ainda que disputada geralmente em campos secundários e dominada por um futebol por vezes um tanto incipiente, em que a vontade e a coragem suplantavam o talento, um futebol de bairrismos, mais raçudo e menos técnico. E também um manancial de episódios picarescos.
Num sábado invernoso o Beira Mar foi jogar a Espinho. O adversário tinha uma equipa modesta onde um ou outro veterano enquadrava uma juventude abnegada, uma equipa com jogadores daqueles de antes quebrar que torcer, daqueles que comeriam a relva se a houvesse... daqueles que metiam a cabeça onde até meter o pé já seria arriscado.
Ora foi isto mesmo que aconteceu...
Partida quase a terminar, num lance corrido junto `a linha lateral, quando o nosso extremo-direito pontapeava a bola, um defesa contrário lança-se atabalhoadamente em queda para a frente na tentativa de cortar o centro. Intervenção desajeitada e desatempada, foi inevitável um contacto físico algo violento, com o avançado a cair pesadamente sobre o tronco do adversário que ficou estendido ao comprido na valeta e a gritar repetidamente e a plenos pulmões " mataste-me, desgraçado!" ao mesmo tempo que dava insistentes e vigorosos murros no saibro lamacento!
Jogo parado, corre o massagista, correm os companheiros, o ajuntamento habitual, neste caso aumentado pela proximidade dos assistentes e o lesionado continuava a berrar desalmadamente o "mataste-me, desgraçado!" e a dar os murros no chão.
Naquele tempo não havia cartões no futebol. Expulsava-se por boca e o árbitro, um gordinho com cara de revisor da CP acabado de chegar a correr do meio-campo e encharcado até aos ossos, decidiu rápido e categórico: "Matou-o! Está expulso!"
"Mas...", balbuciava o "assassino"...
"Não há mas, nem meio mas! Matou-o, está expulso!", insistia autoritário e definitivo o gordinho.
Confusão total... Que sim, achavam os de Espinho e a castiça assistência onde predominavam as gentes do mar, os familiares e os amigos dos atletas da casa!
Que não, achavam os de Aveiro, qual expulsão, qual carapuça... que disparate!
Discussão acesa, deixara entretanto de se ouvir o candidato a morto, agora imóvel e ainda estendido na chão, entregue aos cuidados do massagista que à semana era barbeiro quando, no meio daquele caos alguém bradou em tom faceto do lado de fora "Biste, Toino? O gajo já morreu!"
Ouvindo isto, o pretenso morto em fase de relaxe levanta-se num salto e passa agora a gritar irado "Morri, o caralho!" enquanto procurava abrir caminho à procura do carrasco.
Caldo entornado, homens e mulheres numa enorme gritaria, guarda-chuvas no ar, ninguém se entendia...
Eram agora os do Beira Mar, à parte daquele ajuntamento tão típico que, divertidos, tentavam anular a ordem de expulsão do companheiro. "Vê, senhor árbitro, afinal o homem não morreu..." asseveravam.
Olhos arregalados, cofiando lentamente a farta bigodaça, o juiz aceita..."Realmente... bós tindes razão... o senhor jogador está bibo!", sentencia...
"Pois, e bem vivo!", insistia sarcástico o sete...
Bem vistas as coisas, "Não há dúbidas, não há dúbidas!", o árbitro anulou a expulsão.
O lesionado andava lá fora à estalada. Depois regressou ao terreno de jogo bem ressuscitado e recuperado e o jogo prosseguiu à chuva entre repelões e biqueiradas.
Do lado de fora continuava também a pancadaria.
Palavra de honra que não me lembro do resultado...
Narciso Cruz

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