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terça-feira, 21 de março de 2006

"Histórias de taxistas"

Campeonato de andebol do distrito de Aveiro, finais dos anos sessenta, o Beira Mar como equipa visitante.
Sábado à noite, à falta de melhores instalações, o desafio disputava-se num recinto cimentado, mal iluminado e ao ar livre, ao lado de uma estrada movimentada e barulhenta.
Caía uma chuva miudinha e persistente e a assistência era escassa, os intervenientes e poucos mais num cenário sem história. Mas a "estória" surgiria...
Imprevistamente, ainda o jogo não tivera início, o taxista que transportara a dupla de arbitragem encontrou ali um velho camarada de campanhas militares cujo rasto parecia há muito ter perdido e que estava no local na qualidade de dirigente do clube visitado. O reencontro foi manifestamente efusivo e às tantas transferiu-se para uma tasca das imediações onde, como naquele tempo não havia ainda preocupações com o teste do balão, parece ter sido bem regado e celebrado enquanto o jogo decorria.
Na primeira parte do encontro a equipa de arbitragem produzira um trabalho absolutamente normal e o cumprimento das leis de jogo tornara possível, mesmo em condições climatéricas e de equilíbrio dos atletas extremamente precárias, uma supremacia acentuada do Beira Mar sobre a turma da casa. Nada de admirar, aliás, afinal enfrentavam-se o primeiro e o último da classificação.
Entretanto, por alturas do intervalo, regressado ao local de jogo e ao constatar que a equipa do amigo estava a perder copiosamente, o taxista da "estória" terá achado que era imperioso fazer qualquer coisa...amigo era amigo, afinal ele até estava numa posição previlegiada... e logo ali, quando um dos juízes reentrava no recinto, recebe-o exuberantemente, segura-o com as duas mãos no pescoço e diz-lhe, alto, claro e bom som: " Amigo Zé! Estás-me a deixar ficar mal, pá! Abre os olhos, se queres! S'isto não muda, vou-me embora e vais a pé!"
Perante a estupefacção dos presentes e o evidente desconforto do tal dirigente, o amigo Zé lá conseguiu libertar-se das manápulas do taxista e reentrar no campo com um sorriso de circunstância, não diria amarelo, porque o homem viria a revelar-se mais p'ro preto...
É que, não sabemos se o árbitro Zé levou a coisa mesmo a sério ou se foi apenas uma estranha coincidência mas, dali para a frente, às tantas valia tudo e enquanto o taxista intervalava os seus doutos comentários, "Oh pá, o gajo escorregou, não vês que o chão está molhado?!" com os seus imperativos avisos, "Oh Zé, olha lá que vais a pé, pá... e a noite está escura!", o árbitro ia permitindo ao nosso antagonista empurrões, placagens, passos à descarada, violações grosseiras da área restritiva e... a verdade é que, à conta do regresso do Zé a casa, quase que não ganhávamos o jogo...
Narciso Cruz

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