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quinta-feira, 12 de janeiro de 2006

Entrevista de Artur Filipe ao Diário de Aveiro


Como é que está, neste momento, o Beira-Mar?
Está bem. O clube, no aspecto desportivo, «respira» saúde. Vamos ver se subimos à Liga, porque foi essa uma das nossas propostas aquando do acto eleitoral. Sei que é uma luta que estamos a travar, mas eu costumo ser um vencedor.
Disse que, desportivamente, o clube está bem. E financeiramente?
Como todos já devem saber, a descida de divisão implicou que deixássemos de encaixar cerca de dois milhões e 500 mil euros. Essa verba é bastante significativa. Mas para a próxima época tenciono diminuir o orçamento. Quando pegámos no clube herdamos vencimentos, a jogadores, muito altos.
Como é que tenciona diminuir o orçamento? Vai prescindir de alguns jogadores?
Certamente que alguns jogadores não vão continuar, fruto dos vencimentos que auferem actualmente.Quem?Estou-me a referir a jogadores como Paul Murray e Marcelinho, por exemplo, entre outros…
Isso implica que outros jogadores sejam contratados.
O Beira-Mar é um clube limitado na questão financeira. Que ninguém tenha dúvidas sobre isso. Aquilo que eu tenciono para a equipa profissional são jogadores humildes e não estrelas de futebol. Quero jogadores humildes, porque com eles eu sei que conseguiremos chegar à nossa meta muito mais rapidamente.
Já está a ser planificada a próxima temporada?
Posso dizer-lhe que juntamente com o nosso treinador e com a colaboração do olheiro António Ribeiro, estamos a montar a equipa para o próximo ano. Já temos três jogadores contratados, sendo que um deles é guarda-redes. E garanto-lhe que estas contratações já efectuadas e as que iremos fazer, são realizadas sempre a pensar nos custos para o clube.
Recentemente vieram a público algumas trocas de palavras entre a actual Direcção e o ex-presidente Mano Nunes. Que comentários tem a fazer?
Para mim toda essa situação nunca deveria ter começado. O que Mano Nunes tem vindo a dizer é pura mentira. Aquilo que ele deixou no clube foram papéis e dívidas que a Câmara Municipal de Aveiro e a EMA têm para com o clube, que não estão nadas fáceis de regularizar.
Qual é valor da divida dessas duas entidades para com o Beira-Mar?
Neste momento, ultrapassa os 500 mil euros. O Beira-Mar não pode passar sem receber esta verba.
Tem falado com o novo presidente da Câmara de Aveiro?
Sim, temos tido algumas conversas. Noto que, da parte dele, há vontade de resolver esta situação num curto prazo de tempo. Até porque o Dr. Élio Maia é uma pessoa vocacionada para o desporto.
Ainda em relação ao mandato de Mano Nunes, gostaria de lhe lembrar que as contas foram aprovadas na última Assembleia-Geral.
É verdade que se aprovaram as contas, mas o clube não pode viver do passado.
Os jogadores têm os seus ordenados em dia?
Até ao dia de hoje, sim. Mas já se começa a complicar um pouco para pagar o mês de Fevereiro. Estamos a negociar com a EMA para recebermos alguma verba. A vida é uma luta, mas no Beira-Mar tem sido muito difícil e quero que todos os sócios saibam que o espírito desta Direcção só se resume a «Vencer». É apenas essa palavra que está na nossa mente.
As comemorações de mais um aniversário acontecem com o Beira-Mar em primeiro lugar. Esse aspecto, pelo menos, é positivo.
Sempre ouvi dizer que «Candeia que vai à frente, ilumina duas vezes». Estamos satisfeitos por estarmos em primeiro lugar. Agora, reconheço que podíamos estar mais longe, não fosse a falta de avançados.
Quando é que se resolve esse assunto definitivamente?
Já temos contratado o Jorge Leitão. Estamos a ver os dois senegaleses, Baba Wada e Ahamed Dióp, e o belga Mustapha. Mas, brevemente, vamos ter um jogador que, actualmente, joga na SuperLiga.
Está-se a referir a Roberto?
É uma das hipóteses, de facto. Mas temos que ter mais um jogador para a linha da frente.
Se a necessidade se prende com o sector atacante, porquê a aquisição do defesa-central Buba?
Porque o Alcaraz tem sido assediado para a sua saída e porque já estamos a pensar no futuro do clube.
Há propostas para o Alcaraz?
De concreto não há nada. Confirmo que temos propostas do estrangeiro, através de empresários, mas nenhuma agrada ao Beira-Mar.
Quanto é que o Beira-Mar pede pelo jogador?
Estamos a pedir 700 mil euros. Mas também quero-lhe dizer que, apesar de estarmos a precisar de dinheiro, não queremos que ele saia. E o que eu digo em relação ao Alcaraz também se aplica relativamente ao Tininho, que também está a ser muito cobiçado. Para o ano que vem, na Liga, estes jogadores darão mais «nas vistas».
Imagine que o Beira-Mar, por hipótese, não sobe de divisão. Vai solicitar eleições antecipadas?
Nem me fale nisso. Se não subirmos é a derrapagem total. Sempre disse que gosto de dificuldades. Sempre que fui chamado a servir o Beira-Mar foi em situações de crise. Mas nem quero ouvir falar em tal possibilidade.
Como é que vê estas situações que se passam no futebol, como os casos do Marco, Ovarense e Estoril?
Eu já previa isto. Já tinha dito, numa entrevista quando tomei posse, que estas situações iriam surgir este ano. Isto que está a acontecer no futebol é o reflexo do estado do nosso país. Os clubes sofrem com esta situação, simplesmente porque não produzem serviços.
Acha que o Estado deveria intervir no futebol?
Sou da opinião que o Estado deveria ser chamado a intervir no nosso futebol.
De que modo?
Através de regras e estruturas. Nós formamos atletas e homens. Tiramos os nossos jovens dos maus caminhos através do desporto. Pelo facto, deveríamos receber subsídios. Mas não. O que acontece é que o Estado ainda vem buscar algum dinheiro através dos impostos.
Acha que a crise se pode alastrar a outros clubes?
Sem dúvida alguma. Estou plenamente convencido que outros clubes vão anunciar as graves dificuldades por que estão a passar. Não só na Liga de Honra, como na própria Liga. Veja-se o caso que assolou o Vitória de Setúbal.
O que achou da anunciada desistência do Estoril?
Se o Estoril tivesse desistido, colocaria em causa a própria verdade desportiva. Na minha opinião, mais vale descer com dignidade do que desistir da competição.

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