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quarta-feira, 8 de fevereiro de 2006

"Histórias de adeptos"


O Pinto (*)
Parte I
Nos anos setenta, o Pinto era uma figura incontornável da Superior Norte. Baixote, a fugir para o anafado, de olhos grandes e bigodinho manhoso, aos Domingos o Pinto deixava o seu rotineiro "metier" de cozinheiro na Universidade, vestia a pele de fanático da bola e transformava-se no mais doente dos adeptos Beiramarenses.
O Pinto fazia-se notar. Era espalhafatoso, falava alto, mandava papos, incendiava as hostes em redor, o Pinto incitava os seus com vigor, dava-lhes "conselhos" pouco ortodoxos, ridicularizava os adversários, insultava os árbitros, o Pinto não era propriamente um modelo de sensatez.
Cumulativamente, tinha também uma veia cómica e, talvez por isso, sempre uma roda apertada de circunstantes à sua volta, os disparates faziam rir, o Pinto alternava os incitamentos com umas graçolas que dispunham bem, o apoio estava garantido. E não se esquecia de piscar o olho aos polícias...
Era, de facto, uma figura, um cromo daqueles tempos.
...
O Pinto era meu vizinho.
Um belo domingo, claro e solarengo, o Pinto procurou-me à hora da bica.
Vinha entusiasmadíssimo. Tinha comprado um automóvel na véspera, "uma máquina de truz, pá, um negócio da China, ouviste bem, pá?!" e tinha de ir a Coimbra naquela tarde ver o Beira Mar.
"Muito bem, pá, dou-te os meus parabéns!", dizia eu ainda desconhecedor do pequeno problema que levara o Pinto à minha procura... é que o nosso homem não tinha carta e portanto eu é que tinha de guiar o bólide...
Era o que me faltava... que "não", dizia eu, bem conhecedor da peça e ainda lembrado de um caldinho que o Pinto me arranjara uns tempos antes quando, não reparando nas cores dos adeptos em redor, bem ao seu estilo, ousara menosprezar em tom chocarreiro as excelsas virtudes das mães e esposas dos jogadores do Braga... de modo que, nada feito, repisava eu à procura de uma boa desculpa, não havia hipótese!
O Pinto não era homem de se deixar convencer assim com duas tretas, era insistente, persuasivo, tinha argumentos...
O Pinto multiplicava-se em juras e promessas, nada de bocas foleiras, nada daqueles nomes, o Pinto iria portar-se como um verdadeiro menino de coro...
Aduziu razões, suplicou, apelou à minha costela auri-negra, desesperou...
O Pinto arrancou-me o "sim".
...
Em tarde de calor, o velho Fiat de pintura mentirosa a encobrir a ruina dos anos fumegava a pedir água a cada meia-dúzia de quilómetros percorridos, resfolegava a cada balde de água solicitado à beira da estrada, engasgava-se de novo, ameaçava a todo o instante quedar-se desfalecido numa qualquer curva do caminho.
O Calhabé parecia uma miragem e chegar foi quase um milagre!
O Municipal estava bem composto. As bancadas serenas, o jogo decorria numa toada morna, respirava-se quietude, convidava ao ripanço. Nem parecia um Académica-Beira Mar!
Até que... a certa altura, na marcação de um canto, o Belo (jogador da Académica) projecta-se fora de tempo sobre o nosso guarda-redes. Parece que já andavam pegados. Braços bem levantados, bola firmemente segura nas mãos, apanhado em pleno salto o Domingos é lançado desamparadamente para o fundo da baliza. Comprometido, o Belo enceta uma rápida retirada rumo ao seu meio-campo e os restantes jogadores intentam ainda também retomar as suas posições quando o Domingos se levanta num salto e se lança numa espectacular correria por entre companheiros e adversários na peugada do defensor academista.
A confusão, um sururu à maneira sul-americana, instalou-se no círculo central.
Acho que o Belo não chegou a comer da comida d'urso, mas o árbitro mandou o Domigos tomar banho mais cedo.
Saía o guardião do relvado sob uma sibilante assobiadela dos coninbricenses quando se dá o imprevisto: ao aproximar-se da escada para os balneários, algumas dezenas de sócios da Académica mais exaltados lançam-se, bancada abaixo, perigosamente ameaçadores. (...)



Narciso Cruz
*(continua na próxima semana)

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