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sexta-feira, 30 de junho de 2006

Estórias de bolas

Pelas mais diversas razões, mas quase sempre por contingências directamente derivadas da diminuta capacidade financeira das colectividades associativas, é possível, país adentro, encontrar recintos desportivos nos mais inesperados locais.
No distrito de Aveiro, entre outros, há memória de campos de futebol abruptamente sobranceiros à linha do caminho de ferro, a cursos de água, a estradas de grande circulação, em terrenos inclinados, com as balizas encostadas a vivendas, no meio de vinhedos ou ao lado de cemitérios.
Este último era e é o caso de um campo onde, há anos, durante a disputa de um desafio de júniores as bolas que iam parar ao cemitério...morriam!...
Nem mais, na verdade decorria normalmente o jogo quando, pontapeada de forma incipiente por um atleta mais desajeitado na arte, a bola ultrapassou os limites do recinto e foi saltitar despreocupada por cima das campas do campo santo, coisa que pelos vistos acontecia com alguma frequência e provocava a indignação e a cólera de alguns espíritos vivos mais sensíveis à perturbação dos mortos...
À parte o insólito do tipo de vizinhança, nada seria, contudo, de espantar no caso, não fora daquela vez a estranha dificuldade de reencontrar o esférico desavistado e depois o facto do mesmo, finalmente localizado dentro do gradeamento alto e ferrugento de uma vetusta sepultura, se encontrar... furado!
Facto consumado, conjecturas rapidamente dissecadas e alternativa em movimento, prosseguia o match com a segunda bola quando, projectado velozmente por mais um pontapé destrambelhado doutro craque fora de forma, o novo esférico ultrapassa uma outra vez os limites desportivos e vai, também ele, passear-se aos saltos, indiferente a iras e protestos, por entre túmulos e jazigos...
Há quarenta anos atrás a escassez de meios tornava normal não haver mais do que duas bolas para um jogo, uma de cada equipa, pelo que a partida teve mesmo de parar por falta do essencial.
Jogadores em forçado descanso, do outro lado procurava-se afanosamente a extraviada, afadigavam-se os voluntários pelos estreitos corredores na busca do couro, mas do dito cujo, coisa extraordinária, nem sinal...
Os minutos passavam e, quando entre supersticiosos medos e destemidas galhofas se aventavam no campo as mais engenhosas artimanhas de prosseguir o jogo, eis que, perante o gáudio da rapaziada se anuncia por fim o achamento da redonda, subtilmente posta em repouso ao fundo de uma capela mortuária...
A bola veio pontapeada de regresso num balão chocho de curvatura mal descrita...e os rostos fizeram-se de pasmo...ao cair no chão, a bola não saltou...estava também ela furada...
Nesse mesmo instante, postada à porta da lúgubre capela em acentuada inclinação frontal, uma sinistra figura masculina vestida de negro bradava exaltada "está morta! morta!bem morta!"
O pitecantropo vulto tinha uma vela acesa na mão esquerda, o braço direito debilmente estendido e o dedo indicador em riste a apontar a bola inerte...
Do lado do campo, enquanto uns se riam, olhos arregalados, outros nem tanto...
Depois, quase tão misteriosamente como o imediato sumiço do homem da vela, também acabou por aparecer uma terceira bola e o jogo completou o seu tempo sem mais coisas esquisitas.
Valeu que nunca mais atiraram a bola para o cemitério...
Narciso Cruz

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