Arquivos

quarta-feira, 19 de julho de 2006

Mais "estórias de guarda-redes"

Numa manhã invernosa de domingo, disputando em Ovar e sob um pequeno dilúvio uma partida de juvenis, os atletas do C.D.Estarreja, notoriamente menos dotados técnica e fisicamente do que os seus anfitriões, sofriam uma verdadeira avalancha de avançadas contrárias a que iam resistindo como (mal) podiam, aguentando os ímpetos adversários com um superpovoamento defensivo e uma generosidade de esforço a roçar os limites de cada um.
A pressão atacante era intensa, os pequenotes do Antuã esfalfavam-se denodadamente e quase sempre sem êxito para afastar a bola encharcada e pesadona para longe da sua baliza.
Hercúlea tarefa para as suas capacidades, como se adivinha.
Instalados no meio campo adversário, à entrada da área, dos flancos, de todo o lado, os grandalhões ovarenses disparavam uma catrefada de poderosos balázios que esbarravam invariavelmente nos corpos franzinos dos de Estarreja, nas luvas do seu inspirado guarda-redes ou nos fundos para lá da baliza.
Os minutos passavam e o empate mantinha-se.
A cada remate transviado, a cada defesa do atarefadíssimo guarda-redes rejubilavam os companheiros, batiam-lhe palmas, davam-lhe palmadinhas nas costas, gritavam-lhe elogiosos incentivos. E todos estavam surpreeendidos...
O Guilhas não tinha grande fama como guarda-redes. Boa presença mas instável, era um jovem com potencial e margem de manobra, mas detentor de um temperamento complicado, nem sempre sereno, que noutras ocasiões precipitara inesperados golos nos seus domínios.
Aquele, porém, parecia ser o seu dia e o jogo da sua vida... O Guilhas estava imbatível, defendia tudo, com as mãos, com os pés, com o corpo, à cabeçada.... Porte altivo, boné enterrado, a cara salpicada de lama, o Guilhas comandava as hostes, gesticulava imperante de importância e vaidade, aceitava os incentivos do banco com ar superior, quase de desdém...
O zero a zero mantinha-se e o final aproximava-se.
"Ah! Ganda Guilhas! És o Maior!"
Quando faltavam dez minutos para o final do jogo, o Guilhas e os outros, todos foram impotentes para deter um estoiro que entrou, qual míssil, a raspar na barra...
Que desilusão... quanto desânimo...
Extenuados, derrubado o último esteio psicológico que lhes garantia a já débil energia, alguns dos jovens estarrejenses deixaram-se cair pesadamente no chão lamacento e aí ficaram largos segundos, talvez minutos, vencidos no resultado e no ânimo por aquele tiro certeiro, implacável...
E, no entanto, o pior estava para vir...
Quando se levantaram, já não tinham guarda-redes.
O Guilhas não tinha aguentado mais. Bola recuperada no fundo da rede, irado, pontapeou-a furiosamente para os quintais, atirou as luvas ao chão, o boné para a linha de fundo, soltou bem alto todos os praguedos e vernáculos do seu vocabulário oculto e abandonou o campo desaustinado mimoseando com quantos impropérios conhecia os pobres companheiros, incapazes de ter evitado o fatídico remate...
Nada nem ninguém o demoveu.
O Guilhas era assim, obstinado, capaz do melhor e do pior.
Foi mesmo tomar banho.
Na emergência, o Osvaldo, defesa esquerdo, foi para a baliza...Escolha de duvidosa competência, o Osvaldo era baixote, anafadito e estava esgotado... talvez até ainda mais que os outros...
Os sabichões de Ovar souberam aproveitar e o resultado final foi de oito a zero...
Quando os dez chegaram ao vestiário, o fugitivo já lá não estava.
O Guilhas regressou sózinho, de combóio.
Naquele dia tinha acabado a carreira. Nunca mais foi guarda-redes...

Narciso Cruz

1 comments:

Anónimo disse...

eu lembro-me desse gajo, não era o padeiro?