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quinta-feira, 7 de setembro de 2006

O Beira-Mar tem adeptos?

Esta interrogação pintou a primeira página da edição do Diário de Aveiro do passado dia 4 de Setembro, publicitando o artigo que se seguia nas páginas seguintes, onde o jornalista Rui Cunha procurava respostas para outra questão: «Onde pára o público do Beira-Mar?»
Sobre esta temática da ausência/inexistência de adeptos do Beira-Mar, já tinha prometido pronunciar-me aqui no BN aquando da publicação do post de análise ao jogo Beira-Mar x Aves. Trata-se de uma questão que me diz muito. No entanto, é difícil abordar todas as perspectivas e factores que, em minha opinião, contribuem para o cenário desolador das bancadas do EMA num artigo que se destina a publicação num blog.
Para situar os meus pontos de vista, teria que partilhar a minha história. Contar aqui como é que um miúdo que nem gostava de futebol se tornou adepto ferrenho da modalidade e do Clube da sua terra de adopção, ao ponto de fazer sentir ao pai, por altura do 9º aniversário, que a prenda que mais desejaria era o cartão de sócio do Sport Clube Beira-Mar. Teria, também, que partilhar aqui alguns dos inúmeros casos de conversão “clubística” aos quais assisti e também tive alguma influência. Revelar, ainda, como é que os Ultras Auri-Negros se fundaram com 12 elementos e em menos de cinco anos atingiram quase os 500 sócios. São experiências que vivi e que me ajudaram a compreender, nalguns aspectos, como cativar novos adeptos e novos sócios, envolvendo-os num projecto colectivo.
Na época passada delineei e incentivei a Direcção do Beira-Mar a desenvolver uma campanha nas escolas dos concelhos de Aveiro e Ílhavo. Dessa experiência, retirei algumas conclusões importantes que me ajudaram a perceber, ainda melhor, as dificuldades de penetração do “ideal auri-negro” no seio da comunidade juvenil/estudantil.
Fruto, também, da minha experiência enquanto dirigente dos UAN, tive oportunidade de contactar, conhecer e desenvolver algumas amizades com dirigentes doutras claques e doutros clubes. Tomei conhecimento de modelos de sucesso e outros manifestamente de insucesso. Hoje, não tenho dúvidas em afirmar que é importante aprender com os outros, ver o que se faz por “aí”, mas, não perder a noção que cada caso é um caso e, no caso do Beira-Mar, há especificidades resultantes do meio histórico-económico-político-social em que o Clube se insere.
Pelo exposto, quero concretizar e sintetizar uma ideia, a de que não existe uma “solução” para o problema, antes, um conjunto de soluções que carecem de uma aplicação integrada, adequando-se aos diversos factores que concorrem para o actual desinteresse que reina na cidade e na região em relação ao Beira-Mar.
Uma visão redutora
Ao longo dos anos, as campanhas de angariação de sócios e adeptos que saltaram do papel para o terreno foram sempre descoordenadas e sem continuidade. As políticas de preços de bilheteira alteraram-se ao sabor dos resultados desportivos. E pior, cultivou-se a ideia de se quererem sócios à força, pela negativa; isto é, “se queres vir ao futebol a preços acessíveis, tens que te tornar sócio”. Nada mais errado, assumo eu, como pressuposto num Clube que pretende crescer, que pretende conquistar um público que lhe é manifestamente indiferente.
O conceito de “sócio” de um Clube que não uma SAD (relembro que o Sport Clube Beira-Mar é uma agremiação desportiva, cultural e recreativa) pressupõe a livre vontade da pessoa em se associar, em integrar-se num projecto colectivo, que desenvolve uma actividade vocacionada para os seus membros. Acontece, porém, que o Beira-Mar de hoje não se assume nem se quer assumir como um Clube dos seus poucos sócios. O Beira-Mar quer ser grande, quer ser um digno representante da sua região.
Nessa óptica, revela-se contraproducente adoptar e aplicar políticas que não prevejam a aproximação positiva do público não-sócio à colectividade. E é neste sentido que ao longo dos anos insisto na minha tristeza. O Beira-Mar tem poucos sócios praticando das quotas mais baratas no país e, mesmo assim, continua a fechar-se em torno dos cerca de 10% a 20% de associados que pagam regularmente as suas quotas.
Como é óbvio, compreendo a importância de não defraudar as expectativas de quem se associa, pois, tão ou mais importante que o seu processo de angariação será a sua manutenção nessa condição. Mas, acredito, esse trabalho não se consegue meramente assente numa política de preços baixa para os sócios e cara para os não-sócios. É importante manter o interesse no “produto”, ou seja, nos serviços que o Clube tem para oferecer/vender.
A título de exemplo, olhemos para a época transacta. O Beira-Mar foi Campeão da Liga de Honra apenas com duas derrotas, ou seja, não perdeu a jogar em casa. Durante toda a segunda volta, os sócios não pagaram bilhete suplementar e o público tinha ingressos a 2,5€ desde que adquiridos durante a semana. Uma política de preços que tive oportunidade de elogiar. No entanto, as assistências ficaram muito aquém do esperado (cerca de quatro mil espectadores por jogo) e, até mesmo nos dois jogos de festa (recepção ao Olhanense e Vizela), não ultrapassaram os sete mil espectadores. Para um Clube que se pretende assumir na sua região e no panorama futebolístico nacional, considero que são números muito baixos, ainda para mais, atendendo a um passado recente, do qual guardo na memória alguns jogos ainda no “velhinho” Mário Duarte que foram determinantes para evitar descidas e outros para consumar subidas de divisão que tiveram assistências a rondar os dez mil espectadores. A época passada serve-me, de momento, para ilustrar a minha ideia de que, os resultados desportivos, só por si, não trazem nem fidelizam adeptos em massa (ver, também, o exemplo do Boavista mesmo tendo sido campeão e participado na Liga dos Campeões há poucos anos). Importa, por isso, perceber o que pode proporcionar satisfação a quem vai ao Estádio. Nesse âmbito, torna-se imperioso criar espaços de lazer e confraternização no exterior do Estádio motivando as pessoas a deslocar-se cedo para o mesmo, mecanismos de acesso rápido e fácil ao interior do Estádio sem longas filas e revistas minuciosas que ofendem a integridade de gente de bem, envolvendo o jogo num clima de festa e apoio ao Clube que torne os espectadores parte activa no espectáculo. Mas não só! É fundamental que a equipa, dentro de campo, pratique um futebol atractivo, capaz de empolgar a assistência – algo que na época passada não aconteceu. E o próprio papel dos dirigentes, treinadores e jogadores, durante a semana, na antevisão e projecção do jogo deve ser vocacionado para a mobilização dos adeptos.
É claro que tudo isto parece muito óbvio, mas, na verdade, pouco ou nada se concretiza. Inclusivamente, são os próprios dirigentes dos clubes, em geral, que prestam um mau serviço ao futebol tecendo declarações públicas em que transparecem todos os “podres” do meio que gere o futebol, descredibilizando o evento desportivo que lhes cumpre promover “Domingo a Domingo”.
Em jeito de conclusão…
No seio desta problemática dos adeptos, no que ao Beira-Mar diz respeito, outros factores e outros meios de promoção da informação e da imagem do Clube junto dos adeptos podem e devem ser pensados. Nesse âmbito, concorrem os meios de comunicação do Clube com a sua comunidade, seja na prestação de serviços, na transmissão de informação e/ou pagamentos, bem como, nos pequenos actos que contribuem para alimentar a mística de que vive qualquer instituição que pretende assumir-se como representativa de uma região.
Por agora, parece-me mais importante situar o debate nas causas justificadoras do desinteresse do público aveirense pelo seu Clube e, de certo modo, pelo futebol português em geral, assim como, nas medidas que se podem e devem a adoptar a curto e médio prazo com vista a combater localmente esse mesmo desinteresse.
Ligações:

10 comments:

Anónimo disse...

O Guimara~es, é um caso penso eu que único no país que vive só para 3 clubes. Concordo com tudo o que escreveste, e a ideia em ter preços baixos tb para não sócios deveria ser para manter, porque são poucos os jogos onde mais de 5€, já é dinheiro mal gasto tal é a qualidade do futebol praticado; e temos sempre mais hipoteses de assistirmos a um mau espetaculo, do que a um bom jogo de futebol. Vitor Peixoto

Anónimo disse...

O Guimara~es, é um caso penso eu que único no país que vive só para 3 clubes. Concordo com tudo o que escreveste, e a ideia em ter preços baixos tb para não sócios deveria ser para manter, porque são poucos os jogos onde mais de 5€, já é dinheiro mal gasto tal é a qualidade do futebol praticado; e temos sempre mais hipoteses de assistirmos a um mau espetaculo, do que a um bom jogo de futebol. Vitor Peixoto

João Figueira disse...

A ideia que eu mais ouço é: Se fosse no antigo estádio, no centro da cidade, ia. O novo fica muito longe e fora de mão! Fora de mão?! Um estádio que é servido pela A25, A17, fica a 5m da A1! A única coisa que eu critico é o facto de o estádio não se identificar com o Beira-mar e com a cidade de Aveiro. Admitamos, nem com autocarros a 1€ ida e volta para a cidade, os aveirenses não vão lá porque são comodistas. Só não levam os carros para dentro do relvado porque não podem. De resto, uma muito boa análise ao que se passa no Beira-Mar. Para reflectir seriamente.

fD disse...

Bom apontamento Nuno. Sobre este tema também tenho as minhas ideias que irei publicá-las brevemente. Na sua essência, estão de acordo com o que dizes. A ideia de "racionalidade económica" na captação de sócios parece-me ineficiente.

Um abraço,
Francisco Dias

Helena Thadeu disse...

A "falta" de adeptos activos do beira Mar tem de passar por uma análise mais estrutural do que o estádio ser inacessivel ou acessivel (que na minha opinião não é. Digo-lhe um episódio. No primeiro jogo da época eu comprei bilhete. Só consegui sair do trabalho às 19h15h ou seja, precisamente à hora que começa o jogo. Dirigi-me para a paragem e não passou nenhum autocarro. Sabe porquê? Porque durante a hora do jogo não circula autocarros. Se isto não é estar inacessível... será o quê? Se eu estiver no centro do Porto e quiser ir para o Dragão ou para o Bessa ou mesmo para o do salgueiros, ou leixões, eu vou a qualquer hora; em Lisboa o restelo, a luz e o de alvalade eu vou a qq hora, em coimbra também, em leiria também, em... Só nós é que ou guias ou tens 10€ para ires de taxi, enfim...). Relativamente ao assunto, acho que Aveiro tem pouco amor à cidade. Se não vive activamente a sua cidade como podem exigir que viva activamente o seu clube? Um dia já disse isso, há pouco enraizamento e bairrismo em Aveiro e cairam em cima de mim (salvo seja) porque eu era de fora e não percebia nada de Aveiro. O que é certo é que o "amor por um clube" cultiva-se pelas crianças e adolescentes e não se tem feito muito nesse sentido. Digo eu...

Anónimo disse...

Ninguém se está para se chatear com estas conversas!!
Os dirigentes tão muito atarefados com a primeira liga. Que interessa ter mais ou menos adeptos? Os da camara municipal estão contentes com o estádio, é um bom investimento está sempre cheio "de vento e de cores"! Então já não se recordam da conversa que andava por ai de fazer a imitação de muita gente? Então já não se contentam com isso?
Acreditem que está cheio de gente!
Aquilo vê-se e só um tótó é que não vê que lá tá!
O Beira-Mar deve estar contente com este estádio, aliás dá receitas enormes e ninguém se deve chatear, pra quê? Temos lá as nossas cores, os simbolos, muita publicidade para os muitos adeptos.. as pessoas adoram aquele estádio nunca ví nenhuma crítica nem ninguém incomodado...
Que interessa ter espaços de convivio? interessa mais gastar dinheiros nos jogadores e ficar na primeira liga. A coisa constroi-se de cima pra baixo ooh homem...!! Todo o mundo sabe que não é preciso nada destas coisas o importante é garantir o dinheiro da 1liga e o resto é só paleio.
Aquele estádio é um mundo.. foi pensado de raiz para absorver os ares da lixeira e da zona industrial.. assim sempre que lá vai alguém sempre se pode.. aliviar nos momentos de mais aflição já que inclusivé está perto de Cacia..
Depois aquela estória dos meninos.. pode ser muito comovente, mas eu acho que os dirigentes vão pensar é em contratar o ManaMana que anda perdido algures no tecto do estádio.. cá pra mim já virou foi camaleão. Por falar em camaleão acho que o estádio tem tudo a ver com isso. Os do Beira-Mar não precisavam de ser agradados, importa é os outros. Já temos tudo que interesa fazer mais? Já não chega?!

rakel disse...

sou 1adolescente adepta do beira, com 1amor unico e enorm por este clube, eu sempre que posso vou ver os jogos do beira só quando joga em casa, sou também adepta do sporting, e concordo quando dizem que em Portugal só se liga aos "3grandes", e só agora se liga mais ao Braga e ao Boavista.E como alguns jogos do Beira estão a ser transmitidos na Sporttv é muito mai provável que o pessoal fique em casa a ver e não gaste dinheiro para se deslocar ao estádio para ver o jogo. Eu se calhar esta época também vou menos vezes ver o Beira e não é por o estádio estar longe, é por se calhar os preços dos bilhetes estarem um bocado mais caros relativamente à época passada, que fui a todos os jogos da 2ª volta, e alguns da primeira. Se os bilhetes fossem mais acessíveis(preço) ia de certeza mais vezes, e acho que haviam de angariar adeptos menores junto das escolas da região como o presidente da claque dos Auri-negros já referiu uma vez.
eu AMO o BEIRA ATE A MORTE, E ACREDITAREI NELE, SOU AURI_NEGRA ATE MORRER!!!!

FORXA BEIRA tams KTG:P

Anónimo disse...

" O Beira-Mar tem adeptos?"

RESPOSTA SIMPLES: Não! São todos bi-clubistas!

Vitoriano disse...

Como Vitoriano, fiquei orgulhoso pelass referências (links) feitas ao meu Vitória.

Obrigado e força também para o Beira Mar

Pedro disse...

bem eu concordo com a ideia de que é preciso cativar as pessoas para irem ao estadio. neste clube, e lamento dizê-lo, pensa-se primeiro no $$$ e só depois nas pessoas,mas também é verdade que a Liga de Clubes estabelceu que o preço minimo de um bilhete para um jogo da BWIN é de 5euros.
Mas voltando à ideia inicial. o SCBM nao cativa os habitantes de Aveiro. Temos que fidelizar os habitantes da CIDADE qual região? se nem os aveirenses vao ao estadio. e o EMA tá mt bem servido de acessos.
"Mas como chamar pessoas ao estádio?" deveria ser das questões mais colocadas nas reuniões de direcção. será que é? ou então quem responde nao deve ser a pessoa mais indicada pra isso. perguntem ao Dr.º Nuno Arroteia; desconfio que ele deve ter umas ideias interessantes.
não é que eu perceba mt, mas se não lhe quiserem perguntar, estudem as politicas seguidas pelos clubes da NBA ou do basebol!

para além de fidelizar/cativar os habitantes de Aveiro é necessário, tal como diz o Nuno, que a equipa se envolva neste projecto. como? jogando um futebol atractivo, emocionante. e isso nao acontece! de quem é a culpa? isso é outra historia.

foi so um desabafo.