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sábado, 30 de dezembro de 2006

Paixão...

Neste tempo de despropositado defeso, mais uma originalidade incompreensível e masoquista deste tão sui-generis futebol português, em que a disputa nos relvados passou para a azáfama dos gabinetes dos empresários e restantes intermediários do pontapé na bola, não se torna fácil abordar o fenómeno futebol exclusivamente enquanto disputa desportiva entre quatro linhas.
Omnipresente e ubíquo, contudo, tendo este extraordinário desporto cambiantes alternativas capazes de preencher qualquer ausência, qualquer lacuna nas emoções domingueiras mais fanáticas, eis que, rebuscados no ecran da memória outros desafios, outras páginas intemporais das nossas recordações desportivas, surge envolta na penumbra das coisas quase esquecidas uma curiosa obra poética, poesia menor, dirão os puristas literários, sugestivamente intitulada "Futebol".
Melhor inspiração não encontrei. Tem muitos anos, mais de trinta, seguramente, esta sátira meio jocosa e ainda tão actual decalcada da "Tourada" de José Carlos Ary dos Santos.
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Futebol
Peão, bancada - que importa?
Superior ou lateral,
No estádio apinha-se à porta,
O maralhal.
Sabem que enfiam a touca,
Saem de lá com a voz rouca,
Há porrada e não é pouca,
Na geral.
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São caixeiros, contínuos, operários,
De ganga e boné.
Motoristas, tasqueiros, funcionários,
Malta da ralé.
São bombeiros e empregados camarários,
O povo da rua,
O pobre do Zé!
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Entra o árbitro e os fiscais e há assobios
De insatisfação,
Porque a gente aproveita os desafios
P'ra abrir o pulmão
E já sabe que esta coisa da arbitragem
Não é justiça
Mas vantagem...
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Aos pontapés no destino,
Dia a dia rematamos.
Começamos de menino
E lá vamos!...
O mundo inteiro é baliza
Desejada, apetecida,
Ganha quem tiver mais pernas,
É a vida...
_
Chegam altos e gordos e tifosos,
De rádio de pilhas.
Chegam tipos calmos e outros mais nervosos
Com mulher e filhas.
Por cada janota chegam dez pirosos,
Entram bagorrilhas,
Jocosos...
_
Benzem-se as equipas à entrada,
Já vai começar...
Ficam todos juntos, em molhada
E há moeda ao ar.
Em ânsias, o povinho, na bancada
Só quer é gritar,
Berrar!...
_
Entram sócios, presidentes, directores,
Tipos de cartola.
Entram jornalistas, locutores
P'ra falar da bola.
Entra muita gente que acredita
Num treze
No totobola.
_
E o árbitro
Vem de lá, apita,
E começa
A cachola...
_
Coisas tão sérias ditas a brincar...
E como percebemos aquele final... e como continua igual na sua intensidade esta paixão, esta quase insanidade que entontece perdidamente em todo o mundo tantos milhões de homens e mulheres aparentemente insuspeitos que, jornada após jornada, se degladiam convictos na defesa quase irracional do seu emblema e das suas cores representadas por onze atletas, profissionais tantas vezes apátridas que nada têm em comum com o clube que representam para além de um (chorudo) contrato de trabalho...
Com a devida vénia, "Futebol" é um poema da autoria de Dr. Zeco e foi publicado em data indeterminada no jornal "A Bola".
Para todos um 2007 à medida, com paz, saúde, amor e dinheiro para gastos!
Narciso Cruz

5 comments:

Anónimo disse...

O nosso Presidente está cada vez mais bonito, beijo-o todos os dias na páginazinha do nosso clubezinho!
Luizinho Gomes

Anónimo disse...

Mais uma bomba no Beira? Luis "Encontrão" (Gil Vicente)- vidé "A Bola".
Luis paulo

filipe guerra disse...

Esta sátira decalcada da "tourada" por Narciso Cruz, está muito engraçada.
um abraço

Anónimo disse...

Lindo! Esta sátira está demais. Fêz-me recuar ao tempo em que Portugal era considerado o país dos 3 Fs (Fátima, Fado e Futebol ) e dizíamos nós que o futebol era a alienação do povo (antes do 25 de abril). Mas hoje era suposto já termos os olhos bem abertos. E que vemos nós no Futebol de hoje? Qual foi a evolução? houve evolução? Será que o futebol de hoje ainda é futebol?
Uma Beiramarense que se acha atenta...

Gabri disse...

Muito interessante e divertido. E com tanta coisa a continuar igual tantos anos depois, os presidentes, os cartolas, etc, etc.