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quinta-feira, 5 de abril de 2007

A bandeira...

Comecei a ir à bola com 7/8 anitos. Na altura, os putos não pagavam bilhete e o meu pai, que raramente falhava um jogo em casa, começou a desafiar-me para ir com ele. Digamos que era um desafio para o qual não tinha grandes hipóteses de me furtar. É que a minha mãe queria ficar sossegada a tratar das lides domésticas que lhe corriam melhor sem ninguém em casa. E lá ia eu, com o meu pai e os seus amigos. O gosto pelo clube e pelo futebol tornou-se natural. Na escola, os intervalos eram passados a jogar futebol, ao ponto de acumular na mochila os pães que a minha avó me arranjava para o lanche. Certo dia, levei um raspanete e tanto quando a minha avó calhou de me ver a mochila e lá encontrou uma série de cadáveres de sandes, entretanto, petrificadas... O meu alimento nos intervalos das aulas era a bola.

Habituado a ver todos os jogos do Beira-Mar em casa, ficava seriamente aborrecido quando algum dos «grandes» visitava Aveiro. O meu pai dizia que era muita confusão, as pessoas não se sentavam, enfim, não valia a pena eu ir porque seria uma preocupação acrescida para ele e eu não conseguiria ver nada do jogo.

Durante algum tempo, conformei-me... O meu pai nunca foi pessoa de se dar a uma discussão comigo e eu reconhecia-lhe a razão sem pestanejar.

Decorria a época 90-91, a melhor época de sempre do Beira-Mar. A última jornada reservava uma visita à casa do Campeão, o SL Benfica. O meu tio e as minhas primas convidaram-me para ir a Lisboa passar o fim-de-semana com eles. O programa incluia uma visita ao jardim zoológico no Sábado e a ida ao Estádio da Luz no Domingo, para assistir ao Benfica X Beira-Mar.

Lá fui eu, com 9 anos, envolvido numa comitiva familiar toda benfiquista...

Chegados ao estádio, há uma imagem daquelas que marcam os miúdos. Um pano gigante pendurado na entrada principal do estádio com os dizeres «Benfica Campeão Nacional!». Uma maré vermelha abafava-me. Tanta gente... afinal de contas, era o jogo da consagração dos campeões e o Estádio da Luz estaria a abarrotar. Mais de cem mil pessoas... e o meu pai que nunca me tinha deixado ir ver os jogos com os «grandes» em Aveiro por causa da confusão...

Ao passarmos por uma das muitas barracas de bandeiras e cachecóis, as minhas primas interpelaram o meu tio porque queriam uma bandeira. O meu tio acedeu e compraram uma bandeira enorme do Benfica, que aos meus olhos parecia tocar o céu. De pronto, o meu tio mandou-me escolher uma também. Começaram logo todos a opinar: "Esta! Esta é melhor! Olha esta que diz "Campeão"! Ou esta que tem o estádio!"... Mas os meus olhos estavam vidrados numa das mais pequenas da barraca. A que estava solitária, no cantinho, possivelmente sem esperança de ser vendida. "Quero aquela!" - apontei eu. "Mas aquela é do Beira-Mar!" - exclamou o meu tio. "Hoje é o dia de festa do Benfica! Compra uma do Benfica" - dizia uma das minhas primas. Mas a minha decisão estava tomada. Era aquela ou não queria nenhuma.
Empenhado em deixar-me contente, o meu tio comprou-me a bandeira. Custou 500$ e ainda hoje a guardo religiosamente. No meio da maré vermelha, o Beira-Mar teve, pelo menos, um adepto identificado naquelas imensas bancadas, à altura ainda sem cadeiras.
O Benfica ganhou 3-0 e o Rui Águas sagrou-se o melhor marcador do campeonato, mas o orgulho pelas minhas cores não se ressentiu. Quando chegámos à carrinha do meu tio, abri o vidro e coloquei a bandeira à janela. A minha bandeira era bela... aquele amarelo dourado no meio das listas negras encantava-me. A partir desse dia, nunca mais a minha família questionou o meu Beiramarismo nem me tentaram vender o peixe dos "lampiões", dos "lagartos" ou dos "tripeiros". Sempre tive muito orgulho em dizer que sou de Aveiro e do Beira-Mar!
Escusado será dizer que o meu pai nunca mais me obrigou a ficar em casa nos jogos com os «grandes». Na época seguinte, a mesma em que pedi ao meu pai o cartão de sócio como presente de aniversário, assisti de pé, empunhando a minha bandeira, à vitória do Beira-Mar sobre o Benfica por 2-1 (dois golos do Miranda, alguém se lembra?).

Na próxima Segunda-Feira, uma maré vermelha invadirá o Estádio Municipal de Aveiro. A mística do «velhinho» Mário Duarte perdeu-se. A identidade do Clube também já conhceu melhores dias... Já lá vai o tempo em que os nossos jogadores eram membros integrantes da comunidade aveirense. Agora, passam cá uns meses e abalam para outros lados. Nem sequer chegam a conhecer a história do clube, a sua mística. Estamos transformados num super-mercado de jogadores e com os resultados desportivos e financeiros que estão à vista...
Tenho pena do estado a que chegou o futebol dos mercenários e o meu Clube.
Na Segunda-Feira, levarei novamente a minha bandeira talismã, que não sai de casa desde a ida ao Jamor em 1999. Uma vez que todos apelam à fé e à esperança para que o Beira-Mar não desça, este será o meu contributo mitológico pois não sou crente em superstições.
Gostava, muito sinceramente, de um dia ver o site do meu clube feliz por batermos um recorde de assistência com adeptos do Beira-Mar. Ao menos, que a receita deste jogo valha o martírio de jogar duas vezes fora com o Benfica na mesma época.

13 comments:

BM disse...

Boas :)
Gostei da história... Aqui está a revelação do sentimento "Auri-Negro" que cada um de nós terá...
Também noto o facto do "recorde!" estar a vermelho e o símbolo dos lisboetas.. Slb.. Estar à frente do símbolo do nosso SCBeira-Mar..
Até alguém me pode dizer "pormenores", mas para mim é os pormenores que fazem a diferença ;)
Um abraço!

buLLy disse...

gostei ^_^

Anónimo disse...

Muito bem!
Vamos bater o record, pena é que com vermelhos no estádio, quando devia ser com aurinegros.
X

Anónimo disse...

Grande história.
Tenho uma igualzinha em casa só que está mais descolorada e tem dois simbolos.
Abraço
HG

Anónimo disse...

Nuno; APOIADO, APOIADO APOIADO
PC

Anónimo disse...

revi muito do sentimento que alimento pelo beira-mar neste texto do Nuno, por isso, pela prosa emotiva os parabéns devidos.
o amor a uma terra, a uma cidade é vertido nos seus símbolos, vive dessa nostalgia, é bom que não as percamos. um abraço.

Anónimo disse...

tenho uma estória idêntica..quando era miúdo sempre quis ter uma bandeira do beira-mar..até que umm dia o meu pai lá me fez a vontade..a verdade é que não me lembro o porquê, cá em casa são todos do benfica e nem iam muito ver os jogos e eu desde pequenino sou do beira-mar..será do amarelo :) a verdade é que essa cor até hoje permanece no meu coração..independentemente do meu pai ia ver os jogos sózinho, fiz-me sócio com 12 anos..

quanto a recordes ficava contente de ver o estádio cheio, mas que muitos mais fossem do beira, lembro-me de um jogo com o porto à chuva no mario duarte quando era pequeno em que fiquem mesmo sentado na relva encotado á vedação..ainda jogava o gomes..o estádio estava completamente cheio..boas memórias!

Anónimo disse...

A pena que eu tenho é que basta vir um clube grande para logo muitos beiramaristas de "ontem" deixarem as cores do Beira-mar de lado e "hoje" porem o vermelho...o beira-mar é um clube pequeno e vai mal porque afinal somos tão poucos...

Anónimo disse...

Apesar de extensa esta prosa, não consegui parar de ler...parabéns! Todo o sentimento que envolve o texto, mostra um tal carinho, uma tal envolvência...o tal beiramarismo. Costumo visitar mas não costumo comentar, mas não resisti.Ao jeito de "Era uma vez..."está fantástico.

Jota disse...

Nuno, tudo o que escreves-te leva-nos de novo à esperança, ao espírito confraternista do velhinho Mário Duarte, e ao acreditarmos todos de novo das gloriosas épocas do grande Beira, aquelas onde os grandes tremiam ao chegar a Aveiro!

Mas será que ainda hoje é assim? Não penso que o problema seja só do novo estádio... Onde está o espírito guerreiro da nossa equipa? Onde estão os gloriosos jogadores que sempre transmitiram a mística do clube a quem chegava? Os Oliveiras, os Sousas, os Eusébios, os Dinos, ... Onde estão eles?

Segunda vou lá estar,mas à espera de mais do de sempre... Uma grande maré vermelha de apoio a um gigante que bem ao mal continua com a sua própria mística...
É que não sabendo bem como é possível,um clube como o SLB, com um orçamento algumas 10/20 vezes superior ao do Beira tem no seu plantel bem mais portugueses do que os nossos amarelos...

Que inveja tenho do Paços, do Estrela, até mesmo do Aves... Podem ser pobres (como nós somos apesar de nos fazermos ricos), mas as suas identidades não mudam! Não são vendidos por meios tostões a ingleses ou espanhóis ao cair da primeira dificuldade! Que inveja...

Anónimo disse...

A "maré" pode ser vermelha, mas nunca se esqueçam que o rei SOL é amarelo. Apelo a todos os verdadeiros beiramarenses que nem que se venham a sentir uma "ilha" rodeados de vermelhos por todo o lado, elevem cada vez mais alto as nossas cores, não se deixem intimidar...em Alvalade tentaram calar-nos assobiando estrondosamente e nós Aveirenses nunca nos calámos, pelo contrário ainda sentimos mais vontade de nos afirmarmos. Estamos em Aveiro, pôrra! Então é pelo Beira-Mar que temos que gritar!

Amigo da Sopa disse...

Caro Nuno:

Obrigado por partilhar esta história. Li-a, comovi-me e não resisti a enviar este comentário.
Também eu já fui sócio do Beira-Mar, atleta, mas nunca tive Bandeira. Hoje sou pai de um atleta que milita nas "Escolas" do Beira-Mar, pomposamente chamadas de Academia, e também hoje registei, mais uma vez, um facto a que já estou habituado: A total ausência de dirigentes da Academia do B. Mar e da Direcção num Torneio de Pascoa onde estavam envolvidas duas equipas, tendo-se classificado uma em primeiro lugar e outra em terceiro; cada uma no seu esclão. E Dirigentes... nem sombra! E o Torneio nem sequer era muito longe; era ali em Cacia!

Devia enviar este "Post" para esses senhores. Talvez os ajude a perceber estas coisas do coração Amarelo/Negro.

Bem haja!

Anónimo disse...

hoje de madrugada estive a assistir ao jogo na rtp memória BEIRA-BENFICA da época de 1993 jornada 3 numa época em que o benfica foi campeão e o jogo ficou 1-1..um golo de Dino e outro do Isaias..grande equipa essa do beira..que me deixou basante nostálgico, não foi um grande jogo mas foi um jogo de "taco-a-taco"..daí que o resultado seja justo..o beira aí era uma equipa em que a única vedeta era o colectivo, é claro que Dino já dava que falar e muito merecidamente..as coisas hoje são bem diferentes e o jogo de amanhã ainda mais..penso que hoje em dia o futebol está bem diferente, só para lembrar esse jogo foi o primeiro jogo para o campeonato que antigo estádio inaugurou a iluminação (esta foi estreada num particular com o porto..não me recordo do resultado, mas fui assistir ao jogo!)..em 14 anos jogamos num outro estádio com muitas condições estamos a par com os grandes e crescemos, mas em termos de equipa, de união, de clubismo em aveiro descemos..sinto que o clube assim como o estádio se afasta da cidade..claro a culpa é de todos, não percebo fenómenos como em guimar~es ou até mesmo leixões conseguem e uma cidade como aveiro capital de distrito não vive o clube, os poucos que vivem muitos não vão aos jogos, outros vão mas estão lá para falar mal ou estar calados..poucos são os que sentem este clube como deveriam e isso é que é triste, não o de haver investidores ou poucos portugueses a jogar, na memória do jogo de ontem fica uma imagem de um menino com uma t~shirt com o simbolo do beira junto á rede perto dos gelados..e como eram bons esses gelados..adorava esses gelados..há coisa que não deveriam mudar!..

PM