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quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O desafio do futuro

Há algumas semanas, num qualquer programa televisivo onde se reflectia sobre a história do último meio século do futebol português e se identificava a mesma com os períodos cíclicos de domínio do mesmo por parte dos três grandes, alguém notava que esse longo período de quase sessenta anos se podia dividir em três grandes épocas - a que terão correspondido três distintas hegemonias clubísticas. A primeira dessas fases, coincidente com a era do amadorismo quase total, terá ocorrido até finais da década de cinquenta, princípios dos anos sessenta. Foi o período dourado do Sporting, construído sobretudo em torno dos míticos «cinco violinos». Essa fase de futebol quase completamente amador deu lugar a uma época de verdadeiro profissionalismo a partir do início dos anos sessenta e até meados da década de oitenta. Liderou, nacional e internacionalmente, o Benfica, com triunfos e glórias que ainda hoje perduram e ajudaram a própria selecção nacional dos meados dos anos sessenta. A partir de meados dos anos oitenta entrou-se na actual fase do futebol nacional e mundial: o futebol enquanto «desporto-indústria» - o profissionalismo levado a extremos, o desporto transformado em indústria, a valorização das organizações e a emergência dos clubes-empresa personificados nas SAD's, valorizando-se activos, criando-se namings, fundos de jogadores, etc, etc.. Coincide, a nível interno, com a supremacia indiscutível do FC Porto, só ocasionalmente interrompida e sempre de forma esporádica. Perguntar-se-á, com razão, que terá tudo isto a ver com o nosso SC Beira-Mar. Passo a explicar.
Em minha modesta opinião o nosso Beira-Mar soube adaptar-se e «modernizar-se» de forma razoavelmente consistente quando houve a passagem do amadorismo ao profissionalismo. Coincidiu, de resto, esse período do início dos anos sessenta, com a primeira subida do nosso Clube à primeira divisão. E por lá andou, com passagens mais ou menos longas, oscilando entre as primeira e segunda divisões, sem nunca ter regressado à terceira mas também sem alguma vez se sentir em perigo a própria existência e subsistência do Clube. O problema, em minha opinião, veio a seguir. No momento seguinte o Clube não soube, não pôde ou não foi capaz de se adaptar às realidades dos novos tempos, dos tempos do futebol «desporto-indústria». E esse foi e continua a ser o nosso problema e o nosso drama. Num mundo do futebol «desporto-indústria» o Beira-Mar continuou a ser, apenas, um simpático clube profissional. E nada mais do que isso. Um grupo profissional de futebol, dirigido por amadores e com uma rectaguarda desprotegida e inexistente. Logo, concorrendo em manifesta situação de desigualdade e inferioridade com muitos dos seus competidores directos que nos ganharam avanço em termos de organização e de estruturação.
Ora, salvo outra e melhor opinião, o desafio futuro imensamente urgente do nosso Beira-Mar é exactamente esse - saber organizar-se, saber estruturar-se, saber disciplinar-se, por forma a competir em competições que são mais do que simples provas desportivas profissionais, com meios e instrumentos minimamente iguais aos dos seus mais directos adversários. Esse é, sem dúvida e em minha opinião, o enorme e o imenso desafio futuro que, enquanto Clube, o Beira-Mar, todos nós, temos pela frente. Desafio que ou se ganha ou será definitivamente perdido. Sou dos que acreditam que teremos de ter a necessária arte e o suficiente engenho para saber «dar a volta por cima», captar Aveiro e os aveirenses para a sua (nossa) causa. Porque, sem alarmismos nem derrotismos, mas com sentido de realismo, também sou dos que pensam que não haverá uma segunda oportunidade para encetar tão urgente missão.

9 comments:

André Raio disse...

Durante anos, este grande clube é/foi visto como o "Beira-Beira".
Enquanto os Aveirenses não se libertarem dessa mentalidade e sobretudo, de exuberar os 3 grandes... Não há Sport Club Beira-Mar.
Saudações.

Anónimo disse...

Esta analise estaria correcta se tivesse em consideração os factores exogenos.
Dois desses factores são a gestão do estádio e a relação com a autarquia, ora pelo que se vê e ouve a EMA e CMA apela para o que lhe interessa à letra de um protocolo recente e age na prática fazendo dele tabua raza e toma medidas à revelia de qualquer acordo.
É impossivel repensar o clube sem perceber a estratéia da camara e EMA. É que até essas duas entidades parecem ter estratégias diferentes.
Antonio Filipe

Nuno disse...

Causas para o estado a que chegou o S C Beira-Mar existem várias, mas há uma que não pode deixar de estar associada à situação a que chegámos: a falta de uma gestão profissional que pensasse num clube ao serviço da comunidade onde está inserido. A cidade e a região mudaram e muito, mas os velhos métodos amadores que só pensam no futebol profissional continuaram. Enquanto houve uns carolas com dinheiro para alimentar o futebol profissional, tudo estava bem.
E o risco continua aí, bem presente. Estamos pelas ruas da amargura e só por que saíram 2 profissionais da equipa, já se pensa em gastar mais uns milhares a ir contratar outros dois. Entretanto, o Avanca está cheio de jovens a quem não se dá qualquer oportunidade e ninguem fala nas infraestruturas que não existem e no desfazamento entre a cidade, a região e o clube.
É URGENTE LANÇAR UM DEBATE PÚBLICO sobre o que desejamos para o clube e a sua organização. Só a SAD não resolve nada. As dívidas continuarão a amordaçar o clube nas vertentes amadoras e as vaidades a assobiar para o lado...

Anónimo disse...

Tal & Qual!

Nuno disse...

Olá Nuno,
Por que será que não publicas o meu comentário sobre o futuro do Beira-Mar? Respeito todas as regras que definiram e não acredito que consideres que ponha em causa a qualidade, isenção e respeito devido ao autor do spot (JPDias).

Nuno Q. Martins disse...

Intervenho apenas para esclarecer que a aprovação dos comentários no BN é da exclusiva responsabilidade do autor de cada post.

Um abraço.

João Pedro S. Dias disse...

Complementarmente esclareço que, se por algum motivo, houve algum atraso na publicação dum comentário, tal se ficou a dever ao facto de não ter acedido mais cedo ao blogue e não a qualquer desconforto ou incómodo com o comentário em causa.
Cumprimentos.
JPD

Anónimo disse...

O BM fez nova pausa e adivinham-se muitas dificuldades.
Urgem decisões porque se não aparecem temos nova crise. Os protocolos?
A camara está a gerir o estadio EMA com base em que protocolo?
Quem por lá passa apercebe-se que é pelo primeiro. Será?
Existe algum novo acordo?
Quando fomos precisos (socios) fomos chamados, agora nada mais soubemos.
Rui Peres

Nuno disse...

O meu obrigado pelos esclarecimentos. As "regras do jogo" não estavam esclarecidas ou se estavam passaram-me ao lado. Tudo fica agora claro.
Os meus parabens por estas iniciativas. O BN está mais dinâmico e talvez possa ajudar a encontrar o caminho que todos procuramos para um S C Beira-Mar dinâmico e forte.
Um abraço para todos